segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Capitulo II - "1905" (1ª parte)

Ninguém na aldeia sabia ao certo o que se passava dentro do muro da casa dos Yarbrough. Ninguém via nenhum dos membros da família há mais de duas semanas que seria exactamente o tempo que tinha passado desde que o filho mais novo da família teria nascido. Na boca de cada pessoa havia uma história diferente. “Foram ter a criança para Londres e ainda não voltaram. Se calhar já não voltam.”, sugeria uma mulher de idade enquanto varria algo que não existia na soalheira da porta. “Não pode ser!”, contestava vivamente a vizinha que passava por sua casa a caminho da aldeia mais próxima para procurar água, “Eu vi um criado na carroça. Estava a falar com o Tom, conhece-o? O filho do moleiro. Perguntei-lhe do que estavam a falar e ele disse-me que ele levava comida para a casa. Levava a carroça cheia! Quer dizer que muita gente está lá.”
A velha anciã tinha razão. A família continuava na casa e não pensava abandoná-la tão cedo. Algo que nenhum poderia esperar, algo muito mais grave do que as gentes da aldeia poderiam pensar, estava acontecer dentro dos portões da casa. Quem espreitasse pelo portão de ferro não veria ninguém cá fora. De facto, nessa quente manhã de Setembro, apenas dois habitantes da casa a tinham abandonado. Por conseguinte eram os únicos habitantes e membros da família que, tal como na aldeia, não sabiam o que estava a acontecer, mas, ao contrário deles, talvez pela inocência que ainda corria intacta nas suas veias, não se preocupavam com isso. Apenas se encontravam abrigados debaixo do gigantesco cedro a brincar alegremente com o seu mais recente presente.
- Devíamos chamar-lhe Poppy - sugeriu uma rapariguinha franzina com a cor de pele quase da mesma cor que o pequeno coelho branco que observava atentamente com os grandes olhos azuis.
- Não! Não se chama Poppy a um coelho! - protestou vivamente um rapaz um pouco mais alto que partilhava os mesmos olhos azuis, mas que tinha uma tonalidade de pele um pouco mais escura.
- Então que nomes é que se põe num coelho? - perguntou a rapariga em tom de desafio.
- Sei lá... - admitiu o rapaz.
- Podíamos perguntar à mãe... - os olhos de Lucy desviaram-se do pequeno animal e olhou de soslaio para a mansão. Já não a deixavam ver a mãe há quase 3 dias e os momentos em que a deixavam sair cá para fora eram mais raros do que alguma vez se lembrava.
- Sabes bem que a mãe não pode... - Jacob fixou o mesmo ponto que a irmã mais nova. Apenas 2 anos os separavam um do outro e ele não percebia muito mais do que ela o que estava a acontecer com a sua mãe. Apenas sabia que o seu novo irmão tinha morrido e tinha ouvido numa conversa do seu irmão Francis com o seu pai que a mãe estava muito doente. Para além disso desconhecia completamente o que se passava no quarto dela cuja janela se encontrava teimosamente fechada.
- Tenho saudades da mãe... - confessou repentinamente Lucy tirando o seu chapéu de palha e alisando o vestido de linho branco tentando esconder as lágrimas que lhe vieram aos olhos. Os seus 5 anos não a deixavam compreender porque razões a estavam a impedir de ver a mãe e o seu irmão mais novo.
Jacob não respondeu. Também ele tinha saudades dela, mas pelo que o pai lhe dissera percebia que não havia muito que pudesse fazer. Mary, a ama que tomava conta dele e da irmã havia dito que tinham de rezar muito, ainda mais do que o costume, para que tudo corresse bem e para verem a sua mãe o mais depressa possível. Desde que ela tinha dito aquilo que ele mantinha um terço no bolço dos calções e também tinha entregue um à sua irmã que o mantinha ao pescoço sem saber muito bem o que fazer com ele.
- Achas que os coelhos comem? – inquiriu ela passados alguns minutos, quando compreendeu que o irmão não lhe iria dizer nada sobre a mãe.
- Claro que comem! Todos os animais comem! – retorquiu Jacob secamente. Lucy voltou a fitar o coelho com um olhar pensativo.
- O que deve comer ele?
- Pergunta à Elisa.
Lucy percebeu que o irmão estava mal-humorado, por isso resolveu pôr o coelho no colo e fazer-lhe festas. A hora de almoço aproximava-se rapidamente, então seguiria a sugestão do irmão e perguntaria a Elisa, a cozinheira da família, o que deveria fazer ao coelho. Subitamente, quando Lucy se distraiu enquanto observava o jardineiro a tratar das plantas dentro da estufa, o animal saltou-lhe do colo e, aos saltos, começou a fugir na direcção oposta à casa.
- Jacob! – gritou Lucy correndo atrás do animal. O irmão seguiu-lhe o exemplo e os dois lançaram-se numa correria colossal. Nenhum deles pensava que um coelho conseguia correr tão depressa.
A sorte deles foi que o jardineiro, John, que estava a sair da estufa com o regador nas mãos, o pousou rapidamente para apanhar o animal mesmo a tempo e entregou-o a Lucy que teve dificuldade em segurá-lo por ele se debater energeticamente nos seus braços para voltar ao chão.
- O que se passa com ele? – perguntou ela prendendo-o nos braços – A culpa é tua Jacob! Ele não gosta de ti!
- Eu não fiz nada! – defendeu-se o irmão – Ela está a mentir!
Sem que John pudesse fazer nada para o impedir, os dois irmãos começaram a lutar um com um outro. O coelho caiu no chão, mas desta vez, como se quisesse ver o espectáculo, deixou-se estar no seu posto a comer relva. Se James estivesse a ver aquilo, de certeza que já os tinha castigado, mas agora, com os problemas que tinha, já ninguém o preocupava com os pequenos conflitos entre os filhos mais novos que tinham aumentado documentalmente nas últimas duas semanas. O jardineiro apenas pegou na pequena Lucy ao colo e reprimiu Jacob por ter dado importância às provocações da irmã mais nova. Ambos com cara de poucos amigos, foram transportados até à casa onde, à porta da cozinha, Elisa esperava por eles com os braços cruzados. Obviamente tinha assistido à cena.
- O que foi aquilo, meus meninos? – perguntou ela com uma tom de voz que assustou Lucy que se agarrou com mais firmeza ao pescoço de John.
- Não foi nada, Elisa – respondeu John pousando a filha do patrão no chão contra a sua vontade – Já sabe como são as crianças…
- Vou dizer ao vosso pai! – acrescentou ela olhando alternadamente para Jacob e Lucy – Quando ele souber, não vos vai deixar sair de casa! Vocês iam gostar muito disso, não iam? Ficar aqui fechados o dia todo!
- Elisa! Acalma-te! O senhor Yarbrough tem mais com que se preocupar do que isto. Eu tomo conta deles, não te preocupes – disse John calmamente – Para que vão ficar as crianças trancadas em casa por isto?
- Estou só a cumprir ordens – replicou Elisa secamente – Eles quase que passaram da estufa pelo menos três vezes só hoje de manhã!
- A tua função é cozinhar, Elisa. Devias estar atenta às panelas, não às crianças. Normalmente essa função é da Mary e, quando ela não está disponível, o dever de as proteger é meu, está bem?
Elisa não respondeu. Limitou-se a limpar as mãos ao avental e continuar a fitar as crianças com um olhar tenebroso.
- O almoço já está pronto, Elisa? – perguntou, por fim, John.
- Está. Já os ia chamar. O pai e os irmãos já estão na mesa. Hoje conseguimos comprar peixe, o que é extraordinário, por isso não quero que ninguém se queixe, percebido? – acrescentou ao ver o olhar de Lucy.
- Muito bem. Então lavem as mãos e vão ter com a vossa família – proferiu John. O seu pedido foi logo concretizado e os dois irmãos desataram a correr pelo corredor que ficava logo depois da porta da cozinha e dava acesso à sala de jantar.
Já lá estava o seu pai, sentado à cabeceira com o ar cansado do costume e com cabelo e barba cada vez mais grisalhos. Os seus olhos verdes encontravam-se inexpressivos e fixos na toalha de linho da mesa. Apenas reparou na presença dos filhos mais novos quando Lucy deixou cair talher enquanto brincava com ele.
- Pousa o garfo na mesa, Lucy - ordenou ele numa voz quase inaudível, mas suficientemente firme para a filha obedecer - O que andaram a fazer hoje?
- Estivemos a brincar com o coelho que nos trouxeram ontem - respondeu ela vivamente - Eu queria chamar-lhe Poppy, mas o Jacob acha que esse não é um nome de coelho...
- Não se afastaram de casa, pois não? - perguntou ele com a voz ligeiramente trémula.
- Não. Ficamos a maior parte do tempo debaixo do cedro da frente e depois fomos um bocadinho mais longe, mas não nos aproximamos da estufa - contou Lucy - Podemos voltar lá para fora depois do almoço? Por favor, papá!
- Desde que não se afastem de casa, pode ser - James Yarbrough levou a mão à cabeça. Não dormia há quase 3 dias. O estado de saúde da mulher piorava de dia para dia.
Sentados na mesma mesa, mas do lado oposto a Jacob e Lucy estavam os seus dois irmãos mais velhos, Edward, de 12 e Francis de 16 anos. Também eles apresentavam o mesmo olhar fatigado do pai. Edward fixava os olhos verdes num retrato da família que se encontrava na parede e Francis apoiava a cabeça nas mãos enquanto mexia nervosamente no guardanapo. Lucy parecia não prestar grande importância aos irmãos enquanto inventava uma história com os seus talheres, mas Jacob estava assustado por os ver assim. Queria perguntar o que se passava, mas sabia que eles lhe dariam a mesma resposta de sempre. Que a mãe estava cansada e que ele não se tinha de preocupar com nada.
Durante o almoço nenhum deles falou. Todos, à excepção da mais nova, se limitaram a olhar para a comida e brincar com ela raramente levando pequenas grafadas para a boca. No fim quase todos os pratos estavam vazios e todos mantinham as mesmas expressões. Elisa entrou na sala e nem se deu ao incómodo de os obrigar a comer. Também ela parecia mais magra e cansada. Recolheu os pratos do almoço e substituiu-os por pratos de sobremesa que continham cada um uma fatia de um bolo de chocolate que, noutra altura, teria um óptimo aspecto. Mais uma vez, o bolo ficou no prato e Elisa recolheu-o pouco depois.
- Vou ver como está a vossa mãe - informou por fim James levantando-se da cadeira - Edward, vai com os teus irmãos lá para fora e toma conta deles. O John vai estar a tratar do jardim da entrada e não vai poder estar com eles e a Mary continua a ajudar lá em cima.
Edward pareceu hesitante, mas quando estava prestes a reclamar viu o olhar decidido do pai e também ele se levantou da mesa para ajudar Lucy a sair da cadeira duas vezes maior do que ela. Francis seguiu o pai pela escadaria acima.
Antes de saírem, Elisa colocou o chapéu na cabeça de Lucy e entregou-lhe o coelho.
- Dei-lhe uma cenoura ao almoço. Deve chegar até à hora do jantar, por isso não lhe dês mais comida, percebeste Lucy? - informou ela lançando um olhar de ameaça à filha mais nova do patrão.
- Percebi! - respondeu ela com um suspiro.
- Toma bem conta deles Edward. Sabes que nos tempos que correm nunca se sabe o que lhes pode acontecer - avisou Elisa com uma expressão de preocupação no seu rosto moreno e cada vez com mais sinais de velhice.
- Fique descansada - tranquilizou-a Edward - Ninguém lhes vai pôr um dedo em cima enquanto eu estiver por perto.
- Não confies muito nisso Edward. Não penses que já tens idade suficiente para tomar conta de ti e dos outros. Ainda não sabes nada sobre a vida. Nem eu sei quem anda por aí e já ando neste mundo há muito mais tempo do que tu. Nunca tive tanto medo de andar lá por for como agora. Se alguém vos quiser fazer mal, faz. Não vai ser um rapazinho de 12 anos que os vai impedir. Por isso não te afastes.
- Não se preocupe Elisa. Está tudo bem.
Edward, Jacob e Lucy saíram então para o calor sufocante da primeira tarde de Setembro. Lucy não perdeu tempo e foi logo buscar o seu novo coelho de estimação à pequena gaiola feita de propósito pelo jardineiro da casa. Edward olhou para o bicho desconfiado. Desde que tinha sido atacado por um cavalo selvagem quando tinha a idade da sua irmã que não confiava em nenhum tipo de animal desde pequenos pássaros indefesos à égua que puxava a carroça onde as provisões da família chegavam todas as manhãs.
Edward era um rapaz demasiado alto para a sua idade. Tinha herdado os cabelos claros da mãe e os olhos verdes e mansos do pai. Desde que recebera um chapéu de caça no seu aniversário em Fevereiro que o pai lhe tinha arranjado numa loja de Paris que se recusava a sair de casa sem ele. Era como se com aquele chapéu nada nem ninguém lhe pudesse fazer mal. Tal como os seus irmãos mais novos sentia-se preocupado com a sua mãe, mas ao contrário destes, ele sabia que a situação era bem pior do que se pensava ao princípio. Em vez de melhorar com os cuidados do médico de família, ela continuava a piorar de dia para dia. Quando Edward a viu nessa manhã quase que não a reconheceu. Tinha o rosto mais pálido do que nunca e mal conseguia abrir os olhos. Segundo o médico, se não houvesse nenhum tipo de evolução, ela poderia não ter mais de alguns dias de vida.
- Edward! - a voz de Lucy afastou-o dos seus pensamentos. Sem saber bem como já se encontrava sentado debaixo do cedro com um coelho levantado a pouco mais de cinco centímetros de distância da sua cara.
- O que foi? - perguntou desviando o animal do seu campo de visão.
- Achas que Poppy lhe fica bem? - Lucy examinava o animal ao milímetro como se estivesse à procura de algo fora do normal que lhe desse outra ideia para lhe dar uma identidade.
- Parece-me bem - respondeu Edward sem dar grande importância ao assunto.
- Vez Jacob? O Edward gosta! Fica Poppy e pronto!
A tarde foi avançando calmamente. Pouco tempo depois de o coelho branco ser, finalmente, baptizado, Lucy cansou-se de olhar para ele e começou a fazer todos os esforços que o seu pequeno corpo podia para conseguir trepar a um ramo do cedro característico da casa de Verão dos Yarbrough. No entanto, mesmo com a ajuda de Jacob e de Edward, o membro mais novo da família não conseguiu cumprir o seu objectivo e voltou ao chão com uma expressão de desapontamento, voltando, logo de seguida, a colocar Poppy no seu colo sem falar com os irmãos.
Foi quando viu o seu pai à janela do quarto de Lucy olhando a paisagem com a preocupação estampada mais do que nunca no seu rosto que Jacob se lembrou que Edward, uma das únicas pessoas que tinha tido autorização para estar ao pé da mãe nos últimos três dias, poderia ter respostas sobre o que realmente se tinha passado na longa noite de 16 de Agosto (cerca de duas semanas antes) onde todos tinham pensado que iriam ganhar um novo irmão e, afinal, a cada dia que passava, perdiam a sua mãe. Quando o pai de ambos regressou para dentro de casa, Jacob fitou disfarçadamente o irmão que fixava o seu olhar nas janelas fechadas do segundo andar.
- O que aconteceu com o bebé? - perguntou finalmente Jacob depois do que pareceu uma eternidade.
- O que o pai explicou - respondeu Edward tentando evitar o olhar do irmão - Quando ele chegou já não estava vivo como nós.
- E porque é que não podemos ver a mãe? - insistiu Jacob tentando manter a voz firme.
Edward hesitou alguns momentos. Deu mais uma olhadela à casa e por fim, numa voz quase inaudível que esforçava por esconder de Lucy, aproximou-se do irmão mais novo.
- A mãe ficou... muito triste - respondeu ele ponderando todas as palavras - E, depois de o bebé ter morrido, ela ficou doente, mas o médico está a tratar dela e, em muito pouco tempo ela vai voltar e vai ficar tudo bem, mas até que isso aconteça, nem tu nem a Lucy a devem ver, percebes?
- Não - respondeu Jacob prontamente - Porque é que tu e o Francis a podem ver e nós não?
- Porque a Lucy não pode saber que a mãe está doente e tu tens de tomar conta dela. Percebes? Nós estamos a fazer o que podemos para ajudar a mãe, por isso não te tens de preocupar com isso, mas enquanto nós estamos a fazer isso, podemos não ter tempo para tratar da nossa irmã como ela merece e é por isso que tu tens de ser o irmão mais velho e não a deixar preocupar-se com o que se passa lá em cima.
Jacob olhou o irmão confuso. Jamais em toda a sua vida o vira tão assustado como naquele momento e foi então que percebeu que a situação da sua mãe não era tão simples quanto ele afirmava. O que se passaria com ela? Tinha muitas perguntas, mas depois de ver o rosto do irmão não teve coragem, ou talvez não quisesse verdadeiramente saber o que se passava para além daquelas janelas fechadas e quisesse continuar a ter uma ingénua esperança de que em breve tudo estaria bem.
Durante o resto da tarde não se voltou a tocar no assunto da mãe. Na verdade quase não se tocou em nenhum assunto. O ambiente pesado era apenas quebrado por Lucy que parecia não ter reparado na mudança de atitude de Jacob que brincava com os dedos das mãos enquanto se perdia nos seus pensamentos.
- Porque é que o céu é azul? - perguntou ela subitamente deitada de costas com o seu coelho calmamente pousado na barriga.
- Não sei - respondeu Jacob friamente.
- Claro que não sabes! Tu não sabes nada! Estava a perguntar ao Edward!
Mas Edward não estava a prestar atenção à sua irmã. Nesse momento o seu olhar concentrou-se na estufa a poucos metros de distância onde algo lhe tinha chamado a atenção.

sábado, 8 de dezembro de 2007

Primeiro Capitulo: "Os Yarbrough"

A manhã começou quente tal como durante todos os dias daquele infernal Verão. O dia começou calmo. Pouco passava das 6 da manhã quando os trabalhadores começaram a abandonar as suas humildes casas e se lançaram ao duro trabalho de ceifar os campos que já há muito tinham perdido a sua habitual cor verde. Já desde Julho que se apresentavam amarelados e incapazes de oferecer sustento aquela pobre aldeia. O lago, outrora a grande alegria das gentes daquela terra, também não tinha resistido à grande seca e dele apenas restavam algumas poças de água suja pela terra. Esta situação tinha obrigado a que aqueles que quisessem beber e regar os seus campos, se tivessem de deslocar à aldeia mais próxima onde um pequeno riacho, que não muito antes tinha sido um rio, ia, aos poucos satisfazendo as necessidades de ambas povoações. Mas com o avançar das semanas a situação parecia não melhorar e havia já quem receasse que também este não resistisse às duras condições desse longo período estival.
O moleiro passeava-se lentamente na sua simples carroça puxada por uma mula que começava já a demonstrar o peso da sua idade. Paul vivera naquela aldeia toda a sua vida e não se lembrava de tal situação. Apesar de continuar a fazer o mesmo percurso todas as manhãs até ao velho moinho que já estava na sua família há mais tempo do que alguém se conseguia lembrar, não podia deixar de começar a pensar que talvez aquilo fosse um desperdício de tempo, uma vez que este já não funcionava desde que o rio tinha deixado de passar por ali. Subiu uma encosta onde teve de dar uma chicotada mais forte à mula que se recusara a fazer tanto esforço e teve um vislumbre de uma grande casa de campo que, apesar do sol abrasador mantinha as suas janelas firmemente fechadas. Olhou-a por alguns momentos e abanou a cabeça pensando nas horas difíceis que se passavam dentro daquelas paredes naquele momento.
- De todas as pessoas do mundo, Deus teve de os escolher a eles - murmurou para a mula que tinha aproveitado a pausa para se deliciar com um monte de erva que, miraculosamente, continuava tão verde quanto nos bons tempos da aldeia - Uma tristeza, uma tristeza. Gente boa, esta. Mas quem somos nós para decidir quem deve sofrer? Vamos! - Paul deu mais uma chicotada na mula que, com ainda mais pesar seguiu o seu caminho.
A casa de campo dos Yarbrough erguia-se imponentemente por entre as árvores do bosque. Para marcar o terreno que lhe pertencia, tinha sido construída uma pequena estrada de pedra que fazia lembrar, tal como todos comentavam desde a sua construção, mais uma pequena colecção de jazigos do que um local de passagem. A construção não dava espaço para que mais do que uma carroça ou um carro passassem e, de ambos os lados, continuavam a existir as árvores e a terra batida que sempre fizeram parte daquele local. Ao contrário do que seria de esperar, a estrada não dava acesso directo à casa para quem não fosse a pé, acabando abruptamente com dois degraus de pedra antes do portão principal de ferro que, tal como o resto do muro da entrada da casa, se encontrava vigiado por dois majestosos pilares de pedra. Se os carros ou carroças quisessem entrar na casa, tinham de utilizar um portão que ficava do outro lado da casa e que apenas se poderia encontrar na aldeia mais próxima.
Quem olhasse através do portão principal, conseguia ver uma parte da casa ao fundo. Era uma construção que utilizava o mesmo material do muro, com três andares e muitas janelas. Em largura, ocupava metade do jardim da entrada. Do telhado de telhas negras, erguiam-se também duas janelas do sótão bem como um conjunto de quatro pequenas chaminés em forma cilíndrica que se situavam na ponta direita. Era tão alta que, apesar do muro, toda a gente conseguia ver o andar superior.
O jardim principal que se encontrava na parte da frente da casa era magnífico. Estava coberto de relva bem tratada (apesar do longo Verão a ter amarelejado) e de magníficas árvores de todos os tipos que serviam para esconder um pouco a casa de olhares indesejáveis, no entanto as maiores riquezas da propriedade estavam apenas visíveis para aqueles que lá entrassem. Não dentro da construção de pedra, mas sim nas traseiras onde, corria o rumor, existia quase um mundo desconhecido e ninguém poderia imaginar o tamanho que ocupava.
Tudo estava dividido por secções. Logo à saída da porta da cozinha havia um pequeno jardim destinado essencialmente ao convívio da família. Um altivo cedro cobria de sombra aquele local. Debaixo dele encontrava-se uma mesa branca com seis cadeiras. A poucos metros de distância, do lado direito, também parcialmente escondida por duas árvores estava a estufa, um dos locais preferidos para as brincadeiras das crianças. Depois seguia-se uma grande porção de terreno onde apenas havia relva e que, aparentemente, não servia para nada. A explicação para aquela porção de terreno aparecia um pouco mais à frente nas cavalariças situadas a poucos metros de distância do lago. Haviam quatro cavalos e um pónei que pertenciam a James Yarbrough e aos filhos e costumava ser usual vê-los trotear alegremente pelos terrenos sob o olhar atento da mãe. Mas não nos últimos tempos.
O resto da propriedade estendia-se até às longínquas montanhas onde apenas James se atrevia a levar o seu fiel cavalo branco.
Os Yarbrough habitavam a maioria do ano nos arredores de Londres. O pai da família era advogado na cidade, mas desde o nascimento da filha mais nova que habitavam uma outra casa que não tinha a mesma magnitude daquela. Ali era apenas o local onde a grande e feliz família passava os meses de Verão para fugir à azáfama e mais hábitos da cidade.
James Yarbrough vinha de uma rica família de comerciantes escoceses e era filho único. Os pais tinham morrido quando ele era ainda novo, por isso foi criado por um tio de Manchester que vivia sozinho com a mulher depois de a única filha do casal ter morrido. James teve sempre o que precisou e a sua nova família sempre fez questão de o levar à Escócia todos os anos para que ele não perdesse o contacto com as suas origens, no entanto James nunca mostrou particular interesse pelo país, ao contrário do tio. De facto a única coisa que tinha herdado do tio, Henry Yarbrough, fora a paixão por cavalos. Desde cedo aprendeu a cavalgar e durante a adolescência ganhou vários prémios. Na generalidade a sua vida sempre foi calma sem grandes sobressaltos. Essencialmente tinha aprendido a ser um cavalheiro britânico. O seu destino foi, desde sempre, marcado: advogado, como o tio.
Quando fez 17 anos, James foi enviado para a Escócia por um ano para aprender a defender-se sozinho. Seria uma viagem feita essencialmente a pé e sem grandes luxos. Foi durante uma estadia numa pequena aldeia no Norte do país que a vida do jovem mudaria. Depois de dois dias seguidos a dormir ao relento, James não podia acreditar quando viu meia dúzia de casas escondidas num vale. A primeira pessoa que viu foi uma jovem de cabelos castanho avelã, grandes olhos azuis, tez pálida e feições delicadas que lavava a roupa no rio. O seu nome era Katherine Jones e era, também ela, filha única de um agricultor que morava na aldeia. A mãe tinha morrido ao dar à luz. Tal como a bonita desconhecida, James também não deixava ninguém indiferente. Tinha olhos verdes, um rosto bem definido, usava barba e bigode e era bem-constituido. Acabou por ficar mais tempo do que o planeado na aldeia sendo que só a abandonaria dois meses mais tarde com a companhia de Katherine que apenas aceitou acompanhá-lo se ele visitasse quantas vezes fosse possível a aldeia.
Regressado a Inglaterra, James apresentou com orgulho aquela a quem chamava “noiva”. Henry não deu grande importância à relação do sobrinho acreditando que não passaria de um inocente namoro de adolescentes, no entanto a sua mulher, Jane, nem queria acreditar quando ele lhe apresentou a rapariga de 14 anos. James ficou ofendido por ver a reacção dos tios, de tal maneira que pediu o dinheiro que tinha herdado do pai e partiu com Katherine, para Glasgow.
Mal tinha passado um ano desde que tinha abandonado a casa dos tios, já James segurava o seu primeiro filho nos braços. Katherine tinha apenas 15 anos quando deu à luz Francis Robert Yarbrough, o futuro herdeiro dos Yarbrough. O facto de não serem casados não preocupou o novo pai, mas a sua jovem mulher, educada de uma forma extremamente católica, confessou que se sentia suja por ter cometido tamanho pecado e ameaçou James que o abandonaria se ele não a levasse à igreja da sua aldeia para oficializarem a sua união. Contrariado, James juntou um grupo de amigos, enviou uma carta aos tios e marcou casamento para o dia 17 de Julho de 1889.
Foi uma cerimónia pequena, mas magnifica. O Verão tinha trazido uma nova vida à pequena aldeia. Os campos estavam esverdeados, os ramos das árvores dobravam-se com os frutos, o chão enchia-se de flores. Toda a gente foi até à igreja ver a filha da terra contrair matrimónio com “o nobre” como era conhecido James. Todos levaram flores que atiraram aos noivos quando eles abandonaram “a casa de Deus”. Katherine vestiu-se de branco. Quase ninguém sabia da existência de um bebé de três meses que tinha sido deixado com uma amiga em Glasgow. O dia estava bonito, o sol brilhava, estava calor. James que era completamente contra a ideia de casamento acabou por gostar bastante da cerimónia. Quem também confessou ter gostado mais da cerimónia do que tinha esperado, foram os tios do noivo que, finalmente, aceitaram a nova sobrinha. Afinal os Yarbrough vinham, também eles, de uma pobre família de agricultores.
O casal não teve uma lua-de-mel. Dois dias depois da cerimónia seguiram imediatamente para Glasgow e tiveram uma vida normal e feliz durante dois anos.
A notícia da morte do tio chegou a James por carta numa manhã chuvosa de Outubro de 1890. A letra era da tia e estava tremida. Implorou ao sobrinho que regressasse a Londres não só para o funeral, mas também para lhe fazer companhia juntamente com a mulher e o filho. Katherine aceitou prontamente e ele acabou por consentir também.
Em 1893, o mesmo ano em que James terminou o curso, o casal teve mais um filho. Chamaram-lhe Edward (o segundo nome de Henry). James entrou no mundo de trabalho através de um amigo que tinha conhecido na Universidade de Londres chamado Charles Berry, uma vez que o pai dele era dono do seu próprio escritório na cidade.
Em 1896 a tia de James morreu e ele herdou toda a fortuna do tio que juntou ao dinheiro que ainda sobrava do que tinha o pai. Foi então que concretizou o sonho de Katherine e comprou uma enorme quantidade de terreno na sua terra natal na Escócia já com o projecto de construir um local onde pudesse praticar equitação. As obras começaram em Março de 1897 e só acabaram em 1900. Pelo meio nasceram mais dois filhos: Jacob James Yarbrough em 1898 e, a primeira rapariga da família, Lucy Elizabeth Yarbrough. Foi com o nascimento desta última que James se despediu do seu antigo emprego com os Berry e se mudou para os subúrbios bem longe da sua antiga casa. Foi a partir daí que todos os verões a família esquecia a sua vida durante três meses, fazia as malas e viajava até à Escócia.

sábado, 1 de dezembro de 2007

A história que vos vou apresentar...

Nos próximos tempos vou passar a postar aqui também uma história que já está num outro blog meu e que começei a desenvolver no Verão de 2004, ou seja, no período em que estava prestes a fazer 14 anos.

Desde então já teve muitas versões e muitas personagens que entraram e sairam, mas agora, passados 3 anos penso que está a seguir mais-ou-menos aquilo que pretendia.

Os nomes das personagens são todos em inglês, primeiro porque a história se desenvolve na Escócia e, segundo, porque, ao tentar arranjar um nome português, havia sempre um amigo ou um familiar que tinha esse nome ou conhecia alguém com esse nome e, erradamente, concluiam que essa personagem tinha sido inspirada neles, por isso decidi enverdar pelos nomes ingleses porque não conheço nenhum anglofónico e assim sinto-me mais à vontade para mexer com elas.

E é isto... ainda não consegui arranjar um título para a história, mas, por enquanto isso não me parece relevante.

Sem mais demoras, já no post seguinte, vou começar a postar o que tenho escrito. Espero que gostem... se não gostarem, não serão, com certeza, os únicos. :-D

Apresentação

Olá!
Sou uma rapariga de 17 anos portuguesas com muitas histórias na cabeça, por isso decidi publicar algumas neste blog... alguns contos, algumas histórias mais longas... coisas assim... espero que gostem!